sexta-feira, 7 de maio de 2010

Verbo intransitivo.

Jamais soube o que significava amar. Não o amor oferecido a amigos, família—esse é fácil de distinguir, seja pela força do sangue ou pelo poder das histórias em comum.

Achei ter conseguido identificar os indícios da existência do amor quando aquele outro entrou na minha vida e permaneceu, mudando tantas coisas, adicionando complicações e prazeres.

Mas, a incerteza estava sempre lá, questionando se aquilo era amor ou apenas uma sensação prolongada da fusão de satisfação e comodismo que, fatalmente, acabaria. E, acabando, teria sido amor?

Em algum canto de mim morava a certeza tolamente romântica de que, quando se tornasse realidade, ele curaria minha ansiedade inerente e instalaria a tranquilidade tão desejada, necessária. Mas isso não aconteceu. Ele não apaziguou meu tumulto. Pelo contrário, trouxe um nó na garganta que, aos poucos, tomou proporções assustadoras e já não podia mais ser ignorado. Nem por mim, nem por aqueles que conviviam comigo. Então teria sido amor?

Os fatos-- tão repletos de ausência de sentido em tantos momentos-- que me deixaram incrédula, rancorosa, triste, seriam apenas pequenos contratempos sem importância comparados ao brilho e a dimensão que eu acreditava o amor dar a minha vida. Mas a constante frustração e raiva causadas por palavras ferinas e atos obscuros nunca deixou de me assolar. Se a convivência só fez crescer a minha angústia e minguar a vontade de acordar todos os dias, teria sido amor?

Demorei para aprender, mas hoje compreendo o significado de amar. O meu significado, pelo menos. Amar alguém é curtir o correr dos dias ao lado dele, tirando, a cada oportunidade, o peso devastador das expectativas, porque é da leveza que nasce a harmonia.

É sentir (e não saber—o que faz toda a diferença) que ele precisará da minha ajuda para ser uma pessoa melhor, tanto quanto eu precisarei de um ombro para descansar.

É compreender que o fim não mede a beleza de uma relação, assim como a morte não anula quem fomos. É ter a certeza de que nada, nem ninguém, arrancará de mim as sensações que me fazem ser quem sou. E que precisarei, sozinha, não destruí-las, mas lidar com elas. É entender que a obrigação de me salvar é absolutamente minha.

Amar alguém é ter a liberdade de ser.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Peixe de Água Fria.

Ele não é nada romântico. Nunca falou eu te amo de sopetão. Jamais fez planos impossíveis. Jurar amor eterno então, hunpf.

No início, eu achava que era apenas medo de se entregar e me consolei com essa desculpa, criada por mim mesma. E a ausência de "babação", de certa forma, me desiludia. Fazia pensar que era uma espera, que seria devidamente compensada com o tempo.

Se ele dizia que eu estava bonita, agradecia, mas ficava esperando um "é a mais linda que já conheci". Se ele sorria, aguardava um abraço desses de cansar de ficar na ponta dos pés.

Esperava o romantismo se manifestar e perdia todas as demonstrações mais sinceras de afeto. Idealizar o amor foi um desperdício de tempo. Queria ouvir declarações prontas, promessas absurdas, frases dignas de fim de filme. Esperava refrões de músicas, versos únicos. E querendo tanto, a frustração só era maior.

Queria exageros ditos de um jeito bonito, que parecessem exclusivos. Durante meses, ele dizia verdades e eu buscava clichês. Não entendia que o amor também estava escondido em silêncios e olhares inocentes, de cumplicidade. Em palavras comuns, sem lágrimas, comoção excessiva, sem Almodóvar.

Enquanto ele era sincero, eu queria mentiras. Queria aquilo ali que vi na TV. Como chegar no supermercado e pedir um amor pronto. E ceguei pro amor sendo construído bem na minha frente. Jogava expectativas para cima dele, tentando abafar inseguranças minhas.

Vai ver não reconheci porque não conhecia, tinha referências erradas, entortadas por conceitos irreais de um amor incondicional, que acabou se revelando tão frágil como um castelo de baralho.

Bom que percebi a tempo de me deleitar. Sei que seus sorrisos, quando vêm, são espontâneos. E até seus acessos de sinceridade não me doem mais. Fazem sorrir.
- Tá com saudade?
- Não, ué, nos vimos há 30 minutos.

O que me deixaria arrasada, agora me faz feliz. Sinto alívio por entender que amor não pede por alucinações, declarações, perdição. Amor exercitado com leveza e suavidade não é a base da sobrevivência, não rege vontades e cega desejos, mas se mistura com a rotina como açúcar em café, tirando o amargo e aumentando o sabor da vida.

Claro que ainda peço afagos quando me cansa trabalhar demais ou quando me sinto feiosa. Mas que venha como dengo e não como uma massagem de ego descarada, um predadorismo romântico, que busca usar o outro para se alimentar.

Como diz minha mãe, a gente não nasce grudado em ninguém. Só na mãe mesmo, e ainda assim, somos separados imediatamente. Viver a dois é viver bem sozinho. E mesmo com medo de admitir e depois me arrepender, acho sim que posso aprender.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Happy birthday, dear Lelis.

Eeeeee! É o meu aniversário. E apesar de não poder os amigos receber, vamos festejar. Eu e todos os eus aniversariantes que existem dentro de mim: a velha mulher que já passou por muitas, boas e cresceu na dor. A menina imatura que descobriu semana passada os efeitos de se misturar vodka com cerveja. A moleca que ainda compra na Zara Kids, o mulherão que ouve "gostosa" às 10 da manhã, em plena Berrini.

Estou feliz, muito feliz. Normalmente não gosto, normalmente não é bom. Mas hoje, esses eus darão uma trégua de se estapearem, afinal, temos uma coisa comum. Além de sermos todos aniversariantes, somos todos arianos, autênticos, egoístas, impulsivos, doidos e chatos.

Hoje é diferente, hoje tenho esperança. Hoje olho pra frente. Hoje sopro velinhas e faço desejos. Hoje estou muito feliz e me deixo pensar que hoje é o meu dia. Pouco depois da meia noite, lembrei que não tinha me dado os parabéns. E disse: "Lé, minha querida - como raramente ouso me chamar, já que não tenho e nem me dou esse tipo de carinho - Feliz aniversário!" E eu sorriu. Abracei-me, me beijei.

Hoje é um aniversário feliz. É o primeiro sem aquele e ao lado daquele outro. Mas isso não importa muito. Estamos, eu e meus eus felizes, porque finalmente me sinto feliz por mim. Eu sou minha amiga, minha companheira, minha admiradora e vamos comemorar isso hoje também.

Desejo-me felicidade, muita saúde (de mente e de corpo), muita sorte e muita força. Muito amor e pouco medo. Que eu cresça, me encontre, me equilibre. Que eu aprenda a lidar com a dor sem fazer dela algo maior do que realmente é, e que no final ganhe sempre alguma coisa dela.

Que eu me torne uma pessoa melhor e possa tornar os outros melhores também. Que eu colecione muitos carimbos no passaporte. Que eu tenha inúmeros finais de semana iguais àquele que passei no Rio. Que eu continue cercada de pessoa que sabem o que é respeito e o que é caráter. Que eu possa ser leal, mesmo não sendo fiel.

Que eu esteja imensamente maior a cada ano, como estou agora, em relação ao aniversário passado.

E que eu entenda que alma e amor quanto mais a gente dá, mais a gente tem. Que eu sofra decepções só para ter a sensação inenarrável de ser acolhida por tanta gente querida.

Que eu consiga ouvir mais e falar menos. E quando falar, que o tom da minha voz seja tranqüilo e as palavras pensadas.

Que eu tenha sempre inspiração pra continuar escrevendo nas horas vagas e nas pagas. Que eu saiba cultivar, cuidar e regar o amor dos meus amigos, da minha família e do meu amor.

Que eu possa sempre contar comigo e que enfim eu seja eu e tantos eus!

Sim, hoje é um feliz aniversário!

*Texto em homenagem à minha querida Fê Thomé (uma paródia de suas sempre sábias palavras)

quinta-feira, 18 de março de 2010

Procura-se sabe lá D´us o que.

Pra onde foi a minha inspiração? Cadê? Uma preguiça de acordar. Uma preguiça de tomar banho, escolher uma roupa, escolher entre pão francês ou frutas. Tudo parece ter o mesmo gosto falso de paliativos. De forte somente a preguiça de contar de tantas preguiças.

Da cartilha do sucesso, que manda estudar, amar o que se faz e se relacionar bem, apenas amei. Nem isso faço mais. Sou uma péssima aluna. Tenho a impressão de ter chegado ao topo de uma montanha, mas ela era muito alta e afastada e ninguém me viu.

Em vez de sucesso sinto segundos desejáveis de suicídio, vontade de pular lá de cima da montanha com o dedo desejando um último foda-se ao mundo. Nem que seja para fazer barulho e sujar o chão dos equilibrados. Nem que seja para fazer falta. Cadê o gosto intenso de fugir do mundo com um segredo fatal? Não existem segredos fatais: todo mundo se aproxima de todo mundo por caça e infelicidade.

Somos animais tristes e não seres loucos e apaixonados. Eu me enganei tanto com o ser humano que ando com preguiça de me entregar. Ninguém tem coragem pra mudar nada, ou apenas é inteligente para saber que a rotina chega de um jeito ou de outro, não adianta se mover.

Pra quem faço falta e aonde me encaixo? Aonde sou útil e pra quem sou essencial? Pra onde vou e aonde descanso? Pra quem e por quem vivo? Freud mexeu três vezes no túmulo com a vontade de me dizer que devo viver por mim.

Dane-se a psicanálise: é muito mais gostoso ter outros encantamentos, além do umbigo. Não que esses encantamentos não sejam para agradar meu umbigo. Ok, fiz as pazes com Freud, que deve achar o egoísta um pouco menos doente que o depressivo.

Ou não, não fiz as pazes com Freud, que acha tudo farinha do mesmo saco e nem está prestando atenção em mim. Ele é só mais um a não enxergar o alto da montanha, mesmo porque ele está embaixo da terra. Incluo Freud no meu "foda-se o mundo".

Que papo é esse? A esperança desesperada por amor e reconhecimento profissional deixou escapar a cansada esperança que se assustou de desespero. Perdi meu deslumbramento, a válvula propulsora da vida que tive até aqui.

Cansei de me encantar pelo difícil. Que tal um homem e um salário de verdade pra viver uma vida de verdade? Chega da miséria do sonho. Chega de idealizar uma vida com um fone no ouvido.

Eu quero tocar, eu quero cair das nuvenzinhas acima da minha cabeça. Junto com meu deslumbramento, perdi boa parte de quem eu era. Boa parte tão grande que não tenho para onde ir. Sou uma sem-vida. Junto com o meu deslumbramento, perdi o rumo: quem não sonha não sabe aonde quer chegar.

O sonho guia, leva longe. Mas de frustrado ele te faz retroceder alguns anos, te transforma em criança assustada. Sei disso quando durmo em posição fetal querendo ser devolvida ao quente da minha proteção primária.

Freud volta a ser meu amigo. Minha esperança é que o sonho esteja apenas cansado e depois de uma boa noite retorne colorido, musicado e perfumado. Eu disse a minha esperança? Então eu ainda tenho alguma? Nem tudo está perdido.

Estou deslumbrada com a vida, que te devolve à infância quando o mundo adulto atropela e fere. Lá na infância você se enche de sonhos e volta preparada para o mundo adulto, que se ocupa a frustrá-los todos novamente.

Eu disse que estou deslumbrada? Não, eu não disse, eu escrevi. Que papo é esse? Entre idas e vindas me resumo feliz. Entre altos e baixos me resumo equilibrada. Sendo assim, tá na cara e não tem pane: estou deslumbrada com o fato de não sentir deslumbramento algum.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Should I Stay or Should I Go?

Não quero namorar. A idéia pode até ter passado por perto de mim enquanto me encontrava sob o efeito da dor e bordô dos meus copos de caipirinha de morango, dos beijos de línguas enroladas e juras de amor. Mas assim que minha cabeça volta a funcionar, namoro se torna tão desejável quanto quilos a mais.

Acho uma delícia dormir acompanhada, eventualmente acordar acompanhada. Mas, começar tudo de novo: passar finais de semana brigando por pequenas palavras tortas, dividir meus espaços, entrar em acordo quanto aos feriados, jantar na casa da sogra com a família reunida, não chega a ser uma perspectiva que me faça sorrir em dias cinzentos.

Há de levar-se em conta o fato de eu não ter muita paciência e nunca saber quando o pouco que existe dela escoará ralo abaixo. Fora, é claro, minha ferida recente, que ainda não está completamente estancada.

O problema é que ele me pediu em namoro.

Ele quer namorar e eu, sair correndo.

Posso até dizer que tudo bem, vamos lá, cinco telefonemas em um único dia, tríplice jantar-cinema-cama todos os finais de semana, dar satisfação do que estou fazendo e pra onde vou, quebrar o pau porque saí sozinha numa quinta-feira à noite.

Posso dizer tudo bem, vamos lá, férias obrigatoriamente juntos, um querendo Europa outro querendo Ásia, no que você gastou esses trezentos reais da fatura do cartão de crédito, mas o dinheiro é meu e torro como quiser, festa da empresa que não pode levar acompanhante – você nem pensa em ir, não é?

Dizer tudo bem, vamos lá, é fácil. Difícil é eu querer abrir mão da minha solidão necessária, das vontades esparsas de outros corpos, da necessidade de seduzir pra não enferrujar, de realmente desejar esse tudo-junto-todo-dia.

Mas agora complicou. Acabou-se a deliciosa ingenuidade de viver hoje sem pensar um ano a frente, em comprar minhas roupas ignorando solenemente que tenho que juntar dinheiro para começar uma vida a dois. Afinal, já não sou tão nova e restam cada vez menos amigas e pretendentes solteiros.

Eu que já chorei tanto por amores quebrados sem possibilidade de cola. Que quis gente errada, na hora errada, do jeito errado. Amei um, esperei alguns e espezinhei bem poucos. Eu que vou até o fim do caminho pra não ter dúvida sobre a felicidade morar na última curva. Calejei os pés e sangrei inteira. Eu que não tenho porcentagem: sempre 100%, seja nas risadas ou no desejo de deixar de existir. Eu que vejo sempre tudo cor-de-rosa ou o horizonte escuro, com trovões e a impossibilidade de céu azul.

Eu que preservo algo em mim, trancado, detrás de placas de "Afaste-se", mas anseio, calada, alguém que invada o terreno, quebre a grade e descubra o que há lá dentro. Publicamente, cínica e irônica. Em essência, triste. Eu que anseio pela felicidade eterna, e não acredito mais no eterno, preciso decidir se hipoteco meu futuro com alguém ou comigo mesma.

Estar com ele é como boiar no mar: a tranquilidade é impagável. Não menos que a excitação da possível aproximação de ondas. Tenho cafuné, carinho, sexo, copo de vinho cheio, companhia no caminho — seja até o parque, seja até o fim da vida. Ele me acalma com o abraço sólido, que mais parece uma cápsula morna que me mantém distante dos perigos do mundo.

Sozinha, tenho minha pinça para me encher de ferida, minhas baladas divertidíssimas, minhas horas em frente ao espelho, me maquiando para ver se consigo atrair olhares gulosos, messeger e facebook cheios de más intenções, meus livros madrugada a dentro. Entregue a minha companhia, possuo o domínio do meu tempo e sofro ou me alegro sem testemunhas, sem perguntas.

Sei que estou comparando o azul do mediterrâneo com o bege do Saara, mas nada me dá a certeza que conseguirei manter o melhor dos dois e não acabar tendo o pior de ambos: a opressão da presença alheia e a desolação do meu vôo solo. Alguém precisa me ensinar a dosar: minhas medidas estão todas fora do padrão.

Ele quer me namorar eu não estou pronta para, novamente, me sentir de alguém.

Ele quer viver comigo e eu não confio na duração do meu desejo.

Eu só quero um dia bom após o outro e, ao olhar pra trás, sei lá quando, notar que eles foram mais constantes e marcantes que as horas ruins.

Ele precisa de um compromisso, um rótulo. Minha felicidade é medida pela vontade de estar com alguém subtraindo a necessidade de estar. A dele, um jantar em família ou uma festa em amigos, de mãos dadas comigo. Eu me delicio com os vícios, ele aspira pelas virtudes. Eu me alio a quem não entendo. Ele, conta pra todo mundo a nossa história, em ordem cronológica e com detalhes, pra ver se a minha inconstância passa a fazer algum sentido.

Mas, mesmo assim, ele quer me namorar.

Poderia acabar com tudo. Dissolver o impasse e tocar a vida para o próximo interesse, que existirá. Sempre existe. A tapas e dor, aprendi isso. E então eu perceberia como é bom estar ao lado de alguém que tem muito para me dar. Estabeleceria uma troca, decifraria os silêncios, superaria o embaraço do meu corpo nu perante o olhar de significado que desconheço e, por isso mesmo, temo.

Poderia, e posso, fazer o que quiser, como sempre fiz, mas não é essa a questão. O que tem tirado meu sono é que ele realmente gosta de mim e me coloca diante da certeza de que, ao seu lado, jamais sofreria. E eu não tenho a menor idéia do que fazer com isso.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Mundo pequeno.

Quando a Renata me conheceu na balada, exclamou que tinha certeza que eu era muito mais alta. Ela ficou sabendo desse blog através de um amigo que temos em comum e passou a acompanhá-lo quase diariamente.

Quando meu pai indicou meus textos para um amigo, ele recebeu a resposta por email: “filha de peixe, peixinha é, mas nesse caso o ditado se enganou. Sua filha é um tubarão”.

Quando o Rubens, que trabalhava comigo numa outra agência discutia meus atributos físicos com os outros caras do trabalho, ficou espantando quando alguém soltou “ela tem menos de 1.60”. E retrucou: “sério? Mas chama atenção como se tivesse 1.80”.

Na época que resolvi montar esse blog, minha tia Elaine pareceu me elogiar: "você é pequena só no tamanho".

Tem sempre alguém achando um absurdo eu escrever sem usar os “lhes" e “los” e outras firulas. Meu português simples e direto e sem os mares assoviados que planam na planagem dos assovios que se perdem no trilho do trem assolado.

Tem sempre alguém achando um absurdo eu não saber o que disse aquele filósofo ou poeta ou colunista de revista gringa. Tem sempre alguém me comparando com as histéricas “dadeiras”, com as aquelas "minas muito lokis que vivem pra caralho, meu”, as doidinhas que largaram tudo pra “super viver a vida, cara”, as blogueiras que contam do dia com fotinhos para ilustrar, as traças que vivem de livros e drogas pra descobrir o que pensar da vida ou sei lá mais o quê de desgraça se pode encontrar por esses bares de gente que faz sarau ou simplesmente faz mais melhores amigos.

E achando um absurdo erros de português. E imperdoável eu falar só de mim. E que eu deveria falar de outras coisas. E que eu deveria esquecer o passado e falar só de futuro. E que eu deveria, deveria, deveria.

Tem sempre alguém reclamando de ter virado personagem. E reclamando de nunca ter virado nada. Tem sempre alguém reclamando que é muito triste, que é muito pesado, que é muito bobinho, que tem muito palavrão, que chega a ser escatológico, que é muito adolescente, que é muito puro, que tem muita putaria, que é velho demais pra minha idade, que sempre fala a mesma coisa, que não diz coisa com coisa, que incomoda, que não causa nada, que me expõe demais, que me protege, que diz tudo sobre mim, que não diz nada. Seus textos isso. Seus textos aquilo. Os textos. Sempre eles.

Tem sempre alguém chegando e indo embora por causa deles. Atraído, espantado, enojado, louco, excitado. Todos os dias ouço comentários. Daqui e de todos os cantos. De surfistas prateados a neurocirurgiões amarelados. “A comunidade judaica inteira lê o seu blog” “As meninas amam, se identificam, mas os caras acham babaca”. De garotinhas ginasiais que não entendem tudo a suas avós que entendem além, mas isso passa. De amigos e gente que torce pra ser um texto triste. E gente que torce para eu engatar logo em um relacionamento e parar de me lamentar e viver essa fase “rock n´roll”. De garotos para uma manhã a amores infinitos.

Ah, se você lesse mais. Ah, se você soubesse menos. Ah, se você. Se você. Se você. Me achando uma arrogante egocêntrica máster, uma revoltadinha com dor de corna ou simplesmente alguém pedindo socorro antes das bolinhas de gude correrem para as valetas do mundo.

Querendo me ver pequena pra calar a curiosidade crescente. Querendo me afogar pro mar ficar menos gelado. Querendo me dizer que sou isso ou aquilo, tenho isso ou aquilo.

Classificar tantas formas de sentir além de deixar a vida mais controlável ainda me dá lugar no mundo. E dinheiro. E tesão e prazer. E também me dá uns freelas e proposta de emprego como redatora ou jornalista.

Querendo me matar, me comer, me bater, me amar, me desprezar, me ridicularizar, me dizer que assim eu estrago tudo, me ligar de longe, me maltratar bem de perto.

Mas até hoje não teve uma só pessoa que não me imaginasse enorme por causa deles. Enormes. Os textos. Sempre eles.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Viagens.

Minha mãe sempre disse que eu tinha dois lados do coração: embarque e desembarque. Era uma maneira divertida de descrever meu gosto por viagens.

Acho que isso vem desde que eu estava dentro da barriga dela, quando, aos nove meses de gravidez, ela falsificou um atestado médico dizendo estar apenas na metade da gestação para poder embarcar em um avião e voar para outros mares.

Depois, ainda pequena, ganhei inúmeros carimbos no passaporte, mostrando os caminhos inusitados por onde estive.

Sempre, os dias que precediam uma viagem eram alegres, em casa. Meus pais alugavam filmes, compravam livros sobre o lugar que visitaríamos. Era uma viagem interna que acontecia dentro de cada um de nós, antes da viagem física.

E foi assim que conheci um mundo de 7 bilhões de realidades, cores indefinidas, verdades relativas e momentos de pura excitação.

Minha realidade cruzava fronteiras entre a neve argentina, o delicioso mundo do Walt Disney, a fome na Índia, o exército chinês, as cores da Tailândia, o comunismo tropical de Cuba, o calor do oriente médio.

E fui construindo meu mundo assim. Pegando um traço de cada canto que conheci. Um ensinamento de cada pessoa que passou tão rapidamente na minha vida durante essas andanças.

Foi também numa viagem, aos 6 anos de idade, que tudo o que eu quis comprar na imensa loja de brinquedos foi um bastão transparente com água e purpurina dentro.

Eu não queria a casinha com formato pronto ou os jogos de tabuleiro que determinavam o próximo passo a ser seguido.

O meu bastão era apenas um traço que dava início a desenhos fascinantes dentro da minha cabeça. Ele era o tronco de uma árvore de folhas azuis. Uma varinha de condão, um microfone. A parede de um prédio, um poste, onde meu elefante de estimação parava para fazer xixi. Era o teto do meu mundo sem-limites.

Tem pais que ensinam a filha a ser uma ótima dona de casa, excelente esposa e profissional. Eu não sei cozinhar, falo palavrão, sonho demais e economizo de menos. Eu fui criada pra explorar o mundo dentro e fora de mim. Fui ensinada a viajar e usar isso como combustível para viver e sentir o mundo e seus cheiros, o mundo e seus sabores, o mundo e suas paisagens, o mundo e seus contrastes, o mundo e sua natureza harmônica e contraversiva.

O resultado disso é que até hoje vivo um dia de cada vez, não faço planos e ajo inconseqüentemente como se amanhã mesmo fosse entrar em um avião e recomeçar de novo, longe de tudo e todos. Não sou muito de dar satisfação, tenho dificuldade de me apegar às pessoas e me desapego de lugares, manias e objetos com facilidade. Tudo tem um certo "quê" de efêmero.

Em compensação, tenho uma coragem absurda e uma curiosidade profunda a respeito da minha vida de dentro e do mundo lá fora. E me pergunto: quantos pais ensinam isso a seus filhos? Tive sorte. Hoje, com quase 27 anos de idade, já rodei os cinco continentes e acabo de chegar de mais uma cruzada. Tinha esquecido como é revigorante viajar.

E devo isso aos meus pais. Não por eles terem me pagado a última passagem, mas por eles terem me ensinado a viajar, em todos os sentidos. Por terem me ensinado a “não dormir em dólares”, a levar pouca roupa na mala, conversar com o maior número de pessoas possíveis, a entrar na realidade do lugar visitado, a falar quarto línguas, andar em um aeroporto, não ter medo de nada e que, muitas vezes, durante a viajem, a única companhia que você terá é a sua. E de sua imaginação. Onde você for, minha filha, o seu mundo vai com você. Então, cuide para que ele seja rico e acolhedor. Deixe-se contagiar pelo mundo lá fora. E contagie o mundo lá fora com o seu.

Meus pais me ensinaram a viver dentro e fora de mim, a ser amiga e ouvinte dos neurônios, fígado, coração e entranhas. As minhas e as dos outros.

E entre as duas coragens: a de não temer voar pelo mundo e a de quem aguenta o universo dentro de si, acabei ficando com as duas e aprendi que elas se complementam. Uma não vive sem a outra.

Não é fácil ter essa delicadeza de sentir. Já vi tanta gente atravessar oceanos e fronteiras sem absorver nada. De que adianta voltar o mesmo? De que adianta voar horas para encontrar a mesma realidade?

Eu gosto mesmo de conhecer outras vidas. De conhecer outras culturas e perceber a vastidão do mundo, para que meus problemas e minha existência se tornem tão minúsculos a ponto de sumirem entre as areias do deserto, as ruas povoadas da Ásia ou diante dos imponentes monumentos das civilizações antigas.

É preciso ter as ferramentas certas pra olhar pras coisas o tempo todo como se elas fossem encantadas e não simplesmente coisas.

Durante muito tempo eu fiquei acomodada na minha realidade, sem sair do país, sem sair da minha alma. Mas, voltei a brincar com o bastão transparente que da formas à minha imaginação e redescobri o mundo das viagens.

Voltei a atravessar as águas profundas, geladas e escuras, do mundo dentro de mim. Do rio Amarelo e do Mar Vermelho também. Dentro da barraca dos beduínos, do camping na praia e da minha barraca que não é barraca, é lençol preso no teto com fita crepe.

Minhas histórias me deram a capacidade de sonhar e, minha personalidade, uma inquietude que não passa nunca. O resto do mundo agora é comigo.